quarta-feira, 31 de março de 2010

Um belo texto sobre nossa falta de educação e civilismo


O tempo anda muito curto e quase não consigo registrar meus “desabafos” neste espaço. Porém, estou sempre acompanhando o que rola no mundo para não ficar mais desorientado ainda. Dia desses li um ótimo texto sobre os hábitos que fazem os brasileiros, ao menos a maioria, continuarem num nível ainda distante da civilização. Como já disse por aqui, vejo os princípios necessários para uma cidadania plena nos detalhes. Logo, chego à conclusão que estamos distantes dela.  

Voltando ao citado texto, reproduzo-o abaixo. É de autoria do antropólogo Roberto DaMatta e resume perfeitamente os motivos de sermos considerados um país de economia de mundo desenvolvido e uma tragédia nas relações sociais.

A revelação da natureza de uma sociedade pode revelar-se em atos aparentemente comezinhos. Ao texto.
25/03/2010

Em torno do espaço público no Brasil

Roberto DaMatta
Estou no aeroporto de Salvador, na velha Bahia. São 8h25m de uma ensolarada manhã de sábado e eu aguardo o avião que vai me levar ao Rio de Janeiro e, de lá, para minha casa em Niterói.
Viajo relativamente leve: uma pasta com um livro e um computador no qual escrevo essas notas, mais um arquivo com o texto da conferência que proferi para um grupo de empresários americanos que excursionam aprendendo — como eles sempre fazem e nós, na nossa solene arrogância, abominamos — sobre o Brasil. Passei rapidamente pela segurança feita de funcionários locais que riam e trocavam piadas entre si e logo cheguei a um amplo saguão com aquelas poltronas de metal que acomodam o cidadão transformado em passageiro.
Busco um lugar, porque o relativamente leve começa a pesar nos meus ombros e logo observo algo notável: todos os assentos estão ocupados por pessoas e por suas malas ou pacotes.
Eu me explico: o sujeito senta num lugar e usa as outras cadeiras para colocar suas malas, pacotes, sacolas e embrulhos. Assim, cada indivíduo ocupa três cadeiras, em vez de uma, simultaneamente. Eu olho em volta e vejo que não há onde sentar! Meus companheiros de jornada e de saguão simplesmente não me veem e, acomodados como velhos nobres ou bispos baianos da boa era escravocrata, exprimem no rosto uma atitude indiferente bem apropriada com a posse abusiva daquilo que é definido como uma poltrona individual.
Não vejo em ninguém o menor mal-estar ou conflito entre estar só, mas ocupar três lugares, ou perceber que o espaço onde estamos, sendo de todos, teria que ser usado com uma maior consciência relativamente aos outros como iguais e não como inferiores que ficam sem onde sentar porque “eu cheguei primeiro e tenho o direito a mais cadeiras!”.
Trata-se, penso imediatamente, de uma ocupação “pessoal” e hierárquica do espaço; e não um estilo individual e cidadão de usá-lo. De tal sorte que o saguão desenhado para todos é apropriado por alguns como a sala de visitas de suas próprias casas, tudo acontecendo sem a menor consciência de que numa democracia até o espaço e o tempo devem ser usados democraticamente.
Bem na minha frente, num conjunto de assentos para três pessoas, duas moças dormem serenamente, ocupando o assento central com suas pernas e malas. Ao seu lado e, sem dúvida, imitando-as, uma jovem senhora com ares de dona Carlota Joaquina está sentada na cadeira central e ocupa a cadeira do seu lado direito com uma sacola de grife na qual guarda suas compras. Num outro conjunto de assentos mais distantes, nos outros portões de embarque, observo o mesmo padrão. Ninguém se lembra de ocupar apenas um lugar. Todos estão sentados em dois ou três assentos de uma só vez! Pouco se lixam para uma senhora que chega com um bebê no colo, acompanhada de sua velha mãe.
Digo para mim mesmo: eis um fato do cotidiano brasileiro que pipoca de formas diferentes em vários domínios de nossa vida social. Pois não é assim que entramos nos restaurantes quando estamos em grupo e logo passamos a ser “donos” de tudo? E não é do mesmo modo que ocupamos praças, praias e passagens? Não estamos vendo isso na cena federal quando o presidente faz uma campanha aberta para sua candidata, abandonando a impessoalidade como um valor e princípio e do conflito e interesse que ele deveria ser o primeiro a zelar? Não é assim que agem todos os agentes públicos do chamado “alto escalão” quando se arrogam a propriedade dos recursos que gerenciam? Não é o que acontece nas filas e nos estádios, cinemas e teatros? Isso para não mencionar o trânsito, onde os condutores de automóveis se sentem no direito de atropelar os pedestres.
Temos uma verdadeira alergia à impessoalidade que obriga a enxergar o outro. Pois levar a sério o impessoal significa suspender nossos interesses pessoais, dando atenção aos outros como iguais, como deveria ocorrer neste amplo salão no qual metade dos assentos não está ocupada por pessoas, mas por pertences de passageiros sentados a seu lado.
Finalmente observo que quem não tem onde sentar sente-se constrangido em solicitar a vaga ocupada pela mala ou embrulho de quem chegou primeiro. Trata-se de um modo hierarquizado de construir o espaço público e, pelo visto, não vamos nos livrar dele tão cedo. Afinal, os incomodados que se mudem!
Fonte: Jornal “O Globo” - 24/03/10

quarta-feira, 24 de março de 2010

Um grande texto para esquerdistas "religiosos" - ainda que seja em vão, eu sei

Não sou muito de reproduzir textos alheios por aqui. Mas o que segue abaixo, de autoria do professor e Jornalista Eugênio Bucci, vale à pena. Basta não se deixar intimidar pela extensão do texto. É uma aula sobre liberdade e democracia para esquerdistas presos a mundos ideológicos e incapazes de perceber holisticamente a realidade. Bucci, um progressista capaz de pensar com o cérebro, oferece uma lição. Quem for capaz, aprenda.

Cuba, esquerda e liberdade*


Por Eugênio Bucci em 17/3/2010


Muitos apontaram o vazio silente, nas fileiras da esquerda, em relação ao que se passa hoje em Cuba. Após a fala desastrosa do presidente da República, que comparou os presos políticos em greve de fome a criminosos comuns, a indagação ganhou mais corpo: a esquerda brasileira não vai protestar contra nada disso? Entre os que levantaram a pergunta, citemos duas pessoas, apenas duas. A primeira é Fernando Barros e Silva. Ele tratou disso em sua coluna na página 2 da Folha de S. Paulo, na sexta-feira (12/3). O título era particularmente ácido, com nada além de três pontos de interrogação enfileirados: "???". Eis um trecho da coluna:



"Seria demais exigir a retratação pública do presidente por igualar as vítimas de uma ditadura que liquidou seus opositores aos presos comuns de um país democrático? Seria demais pressionar o governo brasileiro para que interceda em favor de dissidentes presos arbitrariamente e/ou a caminho da morte? Seria demais reafirmar (ou assumir, no caso de alguns) a defesa da democracia e dos direitos humanos como valores universais? O silêncio de certa intelligentsia, que insiste em tratar Cuba como um caso à parte, uma ilha da fantasia rodeada de piratas, é tão cúmplice das atrocidades de Fidel e seu asseclas quanto a fala boçal de Lula. Até quando a esquerda nativa (com exceções honrosas) vai encarar a crítica à tirania cubana como uma pauta da direita? Até quando irá confundir o justo apelo dos dissidentes com a `máfia de Miami´? Até quando irão invocar avanços sociais hoje mais do que duvidosos como pretexto – aí, sim – para justificar os horrores do regime? O dissidente Guillermo Fariñas precisará morrer – ou nem isso bastará para romper a omissão criminosa?"



O segundo nome que merece registro é o do filósofo Renato Janine Ribeiro, que se manifestou por meio de uma carta, publicado no Estado de S. Paulo de sábado (13/3):



"Dissidente não é bandido



"A política tem limites éticos. Mesmo apoiando em muitas de suas ações o governo Lula, não posso calar-me quando o presidente da República defende a repressão praticada pela ditadura cubana contra pessoas que reivindicam direitos elementares como a liberdade de expressão, de organização e de voto. Esses valores são universais e não podem estar subordinados ao ditador do momento. Muita energia foi necessária para conquistar a democracia em nosso país e em outros, de modo que não concordo que se faça pouco-caso daqueles que, pondo em risco a própria vida e a de ninguém mais, se empenham em democratizar países que jazem sob a repressão. Ditaduras são nefastas. São indefensáveis. Lutar contra elas é digno."



Renato Janine Ribeiro não desafiou a esquerda a se apresentar: ele mesmo, individualmente, antecipou-se e afirmou não poder se calar quando o presidente da República defende a ditadura cubana.



No mais, a ausência de protestos – e deveriam ser protestos contundentes – é no mínimo embaraçosa. Ela está aí, posta feito um monumento em praça pública. Trata-se de uma ausência material, pesada e sólida como chumbo. Mas não é por ela, nem para ela, que escrevo agora. Eu mesmo já tive ocasião de deixar clara minha indignação com o regime cubano, desde uns 20 anos, pelo menos, e não me ocupo disso nesse momento. Escrevo por outra razão, quero dizer, por algo que repousa na base desse debate: escrevo para discutir o lugar da idéia de liberdade nos debates que vêm acontecendo neste Observatório e, para isso, o episódio de Cuba vem muito a calhar. Por isso é que me valho da ditadura dos irmãos Castro como um "gancho" – ou um pretexto, ou um ponto de entrada. Vamos lá.



O que é mesmo ser de esquerda?



Em seu artigo, Fernando Barros e Silva, levanta um questionamento que parece coisa passageira, mas é estrutural:



"Até quando a esquerda nativa (com exceções honrosas) vai encarar a crítica à tirania cubana como uma pauta da direita?"



Essa obsessão, própria de um "espírito de turma" bastante enraizado nos ambientes da esquerda brasileira, esse cacoete de defender Cuba apesar de alguns "problemas" no quesito direitos humanos chegou a tal ponto que, hoje, quando falamos em uma esquerda que proteste contra o regime cubano parece que incorremos numa contradição em termos. É como se não houvesse nem pudesse haver gente de esquerda que não batesse palmas para as prisões cubanas.



Assim, o apoio incondicional à ilha virou um critério para separar o que é ser "de esquerda" do que é ser "de direita". É irracional, mas ficou assim mesmo. Alguém que se insurja contra as prisões, as perseguições e as execuções em Cuba só pode ser "de direita".



Logo, nada mais automático: as dezenas, centenas de intelectuais "de esquerda" não assinarão um documento contra Fidel e Raul Castro porque, no instante seguinte, serão vistos como correia auxiliar da máfia asquerosa de Miami e, aí, terão passado para o campo da direita. O que lhes seria insuportável.



Com medo do insuportável, com medo de serem apontados na rua como gente a serviço da direita, protegem-se em desculpas táticas. Costumam ponderar que Cuba é uma "questão complexa". Culpam o imperialismo pela falta de democracia em Cuba – sem se dar conta de que, assim, admitem que não há democracia em Cuba. Insistem nas tais "conquistas sociais" do regime de Havana: postos de saúde, escolas, moradia e outros benefícios que já não podem ser bem mensurados, pois não há estatísticas confiáveis.



Entre as "conquistas sociais" jamais incluem os direitos políticos, como fazer oposição, votar, criticar, pensar diferente, escrever e publicar opiniões divergentes, viajar para fora do país e, uma vez fora do país, falar mal do governo livremente. A boca pequena, chamam a tudo isso de pretensões pequeno-burguesas; chamam de veleidades que, para o povo, não fariam a menor diferença: o povo gosta é de comida, quem gosta de liberdade é intelectual (de direita, naturalmente). É verdade que até comida andou faltando na ilha, mas isso eles não comentam.



Uma vez eu disse a um grande amigo, defensor ferrenho do tal socialismo castrista, que numa penitenciária decente os presos podem comer três vezes ao dia, ter boas camas, celas limpas e até dentista de plantão e que, não obstante, todos estão encarcerados, não dispõem de liberdade. Apesar da agressividade do meu argumento – que comparou Cuba a uma penitenciária – o meu amigo até concordou, mas respondeu que preferia fazer suas objeções diretamente aos burocratas, em Havana, com os quais sempre manteve boa convivência. Até hoje, ele se recusa a fazer críticas públicas. Por quê?



A pergunta nos ajuda a aprofundar um pouco mais a investigação dessa idolatria de Fidel Castro entre homens e mulheres tão esclarecidos e de espírito crítico tão afiado. Quando seus argumentos se esboroam, eles finalmente se refugiam numa adaptação superficial do conceito de luta de classes. Falam que, no fundo, o que existe hoje no mundo são dois, e apenas dois lados: o primeiro é aquele do imperialismo ianque (a direita, claro); o segundo lado é o de todos aqueles que são contra o imperialismo ianque (a esquerda e alguns agregados conjunturais).



Simplista, não? Pois é assim que veem. A partir disso, afirmam que não vão "dar força para a direita". Pelos mesmos motivos, não criticam os excessos do Irã e da Venezuela, como se sabe. Afinal, são todos anti-imperialistas e, conseqüentemente, aliados.



Mais liberdade, mais justiça social



Indo ao ponto: quem é um preso político em greve de fome para ousar desequilibrar o jogo a favor do imperialismo? A mesma mentalidade responde, com seu silêncio servil: ele não é ninguém, ele que morra e não nos aborreça. Segundo esse padrão de valores morais, a liberdade até que é boa, mas não pode ser assim tão universal. Ele deve depender da opinião política do freguês. Se o sujeito é contra Fidel Castro, não tem direito a passaporte, que fique bem claro. Renato Janine Ribeiro, quando afirma que "liberdade de expressão, de organização e de voto são valores universais, que não podem estar subordinados ao ditador do momento", expõe a ferida. E sabe que expõe.



A mesma ferida, a mesma postura obscurantista, não se restringe a Cuba, evidentemente. Ela passa por aqui, bem próxima de nós, e dá o tom de muitos dos debates deste Observatório. Eu mesmo tenho sido testemunha. Quando critico uma conduta jornalística de algum grande veículo, colho aplausos ideológicos dos que, na verdade, são contrários à tal "grande mídia" e identificam a instituição da imprensa com os órgãos mais tradicionais, cometendo um erro primário (a instituição da imprensa, eu sempre repito, é maior, mais alta e mais funda que a mera somatória dos veículos).



De outro lado, quando defendo a liberdade dos grandes jornais contra os interesses do governo, recebo ataques dos que me acusam de defender as elites, num outro erro crasso que cometem (não sabem que, ou bem a liberdade existe para todos, de modo universal, ou não existe para ninguém).



Isso não significa que eu queira brigar com leitores. De jeito nenhum. O meu papel é apenas alertar. Muitas vezes, sem se dar conta, alguns defendem uma lógica segundo a qual os "benefícios sociais" (luz elétrica, escola, hospital etc.) são mais importantes que as liberdades. Segundo esse modo de ver as coisas, se há jornalistas abusando da liberdade para atacar um governo que promove os "benefícios sociais", é preciso fechar um pouco a torneira dessa liberdade aí.



O engano é colossal. Seus adeptos não pararam para pensar que não há um só caso na História (com "H" maiúsculo, vá lá) em que algum benefício social tivesse resultado de alguma restrição política. Sempre o que se viu foi o contrário. A liberdade, quando garantida para todos, gera justiça social. Quanto mais liberdade, mais justiça social. Não há um único episódio em que a liberdade tenha obstruído a justiça social. Os chamados "benefícios sociais" não implicam e não podem implicar "sacrifícios políticos". Ninguém sério acredita nesse embuste, a não ser em ilhas da fantasia – ou do pesadelo.



Morrer de fome, fome de liberdade



O cenário no Brasil fica um pouco mais grave quando os ataques contra a liberdade de imprensa brotam de setores em aliança com o Poder Executivo. Em defesa de interesses de governo, alguns, em nome do povo, da sociedade civil ou dos movimentos sociais, advogam o controle estatal dos conteúdos jornalísticos. Outra vez, não sabem o que fazem. Não sabem que esse tipo de histeria populista pode gerar bases sociais para medidas autoritárias – o que seria um desastre.



Governo – bom o mau, não importa – deve ser fiscalizado pela imprensa. Isso não faz dele um inimigo da imprensa, nem faz da imprensa a sua inimiga. Apenas é assim que a democracia funciona melhor. Sem compreender essa dinâmica, muitos acalentam como utopia uma ordem totalitária – sem ter consciência disso.



Quanto às autoridades do governo, estas não podem dizer que não têm essa consciência. Quando silenciam diante de manifestações agressivas contra a liberdade de imprensa, estão agindo de má fé e ferindo os princípios democráticos. O pior que pode acontecer é um governo que estimule a intolerância contra jornalistas. Fiquemos atentos.



A liberdade, é bom a gente saber, não existe para os que concordam com o governo, seja qual for o governo. Ela existe para assegurar o lugar dos que divergem, dos que criticam, dos que querem mudar tudo. Defender a liberdade é defender a voz dos que não concordam – e defender a voz dos que não concordam é defender a nossa liberdade, mesmo quando nós mesmos concordamos com o governo. Nós só somos livres quando nossos adversários são livres. Se fosse o oposto, quero dizer, se se tratasse de garantir apenas os direitos dos que concordam, qualquer Fidel Castro seria um defensor da liberdade. Qualquer Fidel Castro é capaz de conceder até mesmo passaporte para aqueles que o bajulam.



O que faz a diferença é defender o lugar dos que fazem oposição. Eis aí o primeiro compromisso dos que dizem defender a imprensa: assim como o primeiro dever do jornalista é ser livre, o primeiro dever dos que defendem a imprensa é defender a liberdade do jornalista. Quando se diz que a liberdade de imprensa é motor e indício das demais liberdades, é disso que se trata. Em Cuba não existe a liberdade de imprensa, assim como não existem outras liberdades. E, mesmo assim, alguns ainda insistem em dizer que aquilo lá é defensável.



Sim, há uma perspectiva de esquerda para fazer oposição à ditadura em Cuba. E essa perspectiva é a defesa radical da idéia de que a pessoa humana pode e deve ser livre. Não é pedir tanto assim. Mas a esquerda brasileira logrou essa façanha memorável, qual seja, a de deixar, a de entregar de bandeja toda a agenda da liberdade para os representantes da direita. Com isso, perdeu a esquerda. Com isso, perdeu a liberdade. Com isso, perdeu a nossa democracia.



Mas vamos em frente. E façamos figa para que, em Cuba, ninguém mais morra de fome. De fome de comida. De fome de liberdade.

* Publicado originalmente em http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=581JDB007

quarta-feira, 17 de março de 2010

Menos um canalha no mundo político?

O homem que daria panetone aos pobres teve o seu mandato cassado. Aproveito para uma breve tergiversação. Até nisso pobres são azarados. Quando iam se locupletar com deliciosos panetones, vem alguém para estragar a festa. E é bom deixar claro que me incluo na classe. Sou “crasse” média C – ou um pobre achando que pode! Bem, volto ao que interessa.

José Roberto Arruda, até então governador do Distrito Federal só por formalidade, perdeu seu mandato conforme entendimento do Tribunal Regional Eleitoral por causa de infidelidade partidária. Registre-se: o placar foi apertado, 4 x 3. Mais é uma praga a menos na política que vai sendo abatida.- bem, a possibilidade de voltar sempre existe, mas fiquemos com o presente. Ainda faltam ser concluídos um processo de impeachment na Câmara Legislativa e dois pedidos de processo criminal, por parte do Superior Tribunal de Justiça.

Fato é que o mestre dos panetones já era. Porém ele é só mais uma peste a ser exterminada. De onde ele vem, as pragas pululam e se alastram pela sociedade com naturalidade incrível, haja vista as condições favoráveis oferecidas não raro por incautos. É preciso mais. Faz-se necessário cassá-las implacavelmente, à direita, à esquerda, no centro. É preciso intolerância com esse tipo.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O pancadão dos intelectuais

E o “baguí” tá loco entre os intelectual, mano! Levando em conta, claro, que a acepção de intelectual aqui é meio, digamos, gramsciana: entra formadores de opinião e todos os que de alguma forma trabalham no campo das idéias – independente se estas elevam ou afundam o pensamento. Não bastasse o “combate” entre Reinaldo Azevedo e Janer Cristaldo – ainda que o primeiro tente esnobar o segundo –, agora a troca de golpes no corredor* do pancadão da suposta alta cultura é entre o sociólogo Demétrio Magnoli e o jornalista/economista Luís Nassif.

A “parada” entre Janer e Reinaldo já se arrasta há alguns dias como registrei abaixo. Após algumas voadoras diretas do primeiro e porradas a esmo do segundo, mais um golpe foi desferido. Cristaldo volta a atacar no corredor do pancadão intelectual com o artigo Para ocultar uma mancada atroz, recórter tucano papista hidrófobo falsifica seu próprio texto. Janer vê o erro quase infantil de Azevedo ao copiar e colar um trecho do Código de Processo Penal de Macau para ilustrar seu escrito, crendo ser do código brasileiro, como mais uma evidência do vício de copiar e colar do articulista de Veja, acusado também de desonesto.

Bem, o negócio aconteceu há quase um ano. Contudo Janer, intelectual chapa quente que é, aproveitando a atenção dada por Reinaldo, não deixaria por menos. Aguardo a próxima voadora de um dos lados.

Já as pancadas entre Nassif e Magnoli começaram recentemente. Após algumas provocações do primeiro, ele resolveu invadir o corredor e descer o braço no segundo por meio do texto A escandalização da Folha, onde tenta demonstrar que a matéria do jornal sobre suas supostas ligações pouco claras com o governo não passa de mais um factóide.

A certa altura, lembra de um artigo de Demétrio na Folha desancando dois jornalistas da casa que fizeram uma matéria crítica sobre a fala do senador Demóstenes Torres contra as cotas raciais, que teria corresponsabilizado os negros pela escravidão. Para Luis Nassif, o dono do jornal Otavio Frias teria convocado Magnoli para esculachar seus próprios funcionários, que teriam saído da linha traçado pelo supremo chefe, revelando assim, mais uma vez, o padrão medíocre da grande imprensa brasileira.

Demétrio Magnoli se recompôs e cruzou o corredor buscando Luis Nassif a caneladas. Escreveu em A hora e a vez dos caluniadores que seu adversário intelectual, com mania de conspiração, é alugador de pena – escreve para quem lhe paga – e caluniador. Creio que dentro de horas, Nassif tentará uma voadora argumentativa. Resta saber se conseguirá acertar seu alvo ou se vai terminar estatelado no chão, com Magnoli mando-lhe uma canelada no meio do coco.

E assim vai rolado o baile funk da alta (?) cultura.

* Para os desavisados, o corredor em destaque é o nome que se dá – ou dava – ao espaço aberto formado nos bailes funk, servindo de fronteira temporária, quando determinado grupo ficava a postos de um lado, enquanto os adversários de outro. Após algumas provocações à distância, alguns contendores se lançam uns contra os outros, invadindo o espaço alheio para trocar sopapos e desfazendo a linha fronteiriça do corredor. É o famoso lado A contra o lado B. Atualmente creio ser algo raro, haja vista que algumas diferenças podem acabar sendo resolvidas à bala.

terça-feira, 9 de março de 2010

Reinaldo VS. Janer: round...

E os blogueiros Reinaldo Azevedo e Janer Cristaldo voltaram ao confronto. Mais uma vez Cristaldo acusa Reinaldo de plágio. Em Recórter Tucano Papista Rides Again ele chama a atenção para o artigo Bancoop – Velho é o passado do PT!!!, onde o articulista de Veja teria apelado ao velho subterfúgio de dizer-se autor de algo que foi feito antes pelos outros.

Não é preciso dizer que Azevedo tentou desancar Janer, sem citar seu nome, claro, e o chamando de louca barbuda, insinuando tratar-se de uma bicha velha e invejosa – no bom e velho português escrachado. Explica no artigo A criada peluda é humilhada de novo! que já havia deixado claro não ser autor da expressão “nova classe social”, usada para classificar o que chama de elite sindical dos petistas.

Cristaldo respondeu com RecórterTucanopapista hidrófobo constata um de meus vícios perversos, onde reconhece que Azevedo realmente já tinha deixado claro não ser de sua autoria a tal expressão, mas que da forma como a utilizou, deu a entender o contrário.

Bem, penso que dessa vez Reinaldo se expressou mal mesmo. Realmente quem chega agora para ler o blogueiro “tucanopapista”, como diria a “criada peluda” – He he he, não resisti –, entenderia ser a expressão obra do articulista de Veja.

Como disse anteriormente, o nível do bate boca virtual pode não ser lá essas coisas, mais que é divertido, disso não tenho dúvida. Bom mesmo seria um debate aberto entre os dois. Renderia um registro histórico, do tipo Olavo de Carvalho vs. Alaor Caffé Alves

Presos sob um Espírito nada Santo

Ontem o programa Repórter Record mostrou um pedaço do meu estado, Espírito Santo, para o Brasil - e em dias de internet, para o mundo. Nada de praias receptivas, Convento da Penha, Serras com atmosferas aprazíveis e recantos aconchegantes. Nada disso. Foi exposto um pouco da realidade de uma sociedade em desequilíbrio. Mostramos ao mundo como nosso Estado - e não nos enganemos: o país - trata de seus presos. O que foi mostrado é escabroso e degradante não só para os presos.

Uma sociedade que não sabe punir quem desafia a lei se distancia da civilização. E os imbecis que creem que os presos devem ser confinados em espaços indignos até para os animais, apenas demonstram o quanto próximo - e desejosos - da bárbarie estamos.

O ódio se potencializa num local onde a imundície e a desumanidade impera. As vítimas somos todos nós.

quarta-feira, 3 de março de 2010

A direita se estapeia...

A internet é um achado único. Nada que nela é registrado, passa incólume. Alguém até pode apagar o que escreveu. Mas a possibilidade de que suas palavras já tenham sido copiadas e transmitidas por toda a rede é enorme.

Eu costumo me divertir, do meu cantinho, com as contendas entre os intelectuais.Nem sempre elegantes, é verdade. Às vezes, “barracos” dignos de bêbados em porta de boteco. Mas, e daí? Se até entre Marx e Proudhon o nível do debate nem sempre foi mantido acima da linha da cintura, por que cobrar elegância entre os nossos intelectuais? É direita VS esquerda, esquerda VS centro, centro VS esquerda e direita, direita VS direita, e por aí vai. Os combates tanto podem oferecer conhecimento, como podem deixar registrados momentos impagáveis.

Um destes acaba de acontecer. Janer Cristaldo, escritor, jornalista e intelectual ateu formado em letras, resolveu dar mais uma de suas cutucadas em Reinaldo Azevedo – escritor, jornalista e intelectual católico formado em letras –, no texto Recórter tucanopapista hidrófobo se apita. Na verdade, a rusga de Janer com Azevedo é antiga, sendo que este não dá muita bola para aquele. Ambos, nos limites ideológicos reinantes no Brasil, são direitistas.

Cristaldo, que vive chamando Azevedo de plagiador, entre outros adjetivos – segundo ele, o termo Apedeuta, usado pelo articulista de Veja para se referir a Lula, é invenção dele –, acusou seu “colega” de profissão de não saber lhe dar com a língua mãe. Reinaldo não saberia escrever cincha, insistindo em chincha. Se alguém quer ver homens de alta cultura se engalfinhar basta um acusar o outro de não saber escrever. Ainda mais sendo os dois contendores formados em letras da terra mãe.

Reinaldo não gostou e desancou Janer dedicando-lhe o texto Chamando a criada Juliana na chincha – sem citar seu nome, como sempre faz quando tem de respondê-lo. Chamou-o de invejoso e complexado, além de insinuar de que o velho é chegado a uma espada – nada me tira da cabeça de que tem dedo do Olavão, chegado do Reinaldo, aí. Cristaldo, se querendo esperto ou afoito para mostrar a ignorância de Azevedo, parece ter entrado no palco para dar vexame.