quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Cultivando a boçalidade


Não ando com tempo e nem ânimo para escrever. O marasmo cultural, político e social que nos cerca, me leva a guardar meus esforços para blindar meu espírito da insipiência que grassa em nossa sociedade. Não é novidade que um dos “hits” atuais seja discutir o comportamento do humorista e apresentador Rafinha Bastos, que anda trocando os pés e as mãos pelas patas na hora de fazer, digamos, humor. Até comentei sobre outra estupidez perpetrada por ele meses atrás em um de seus shows ao falar sobre o bem que o estupro faria a mulheres feias. Não se tratava de simples humor negro ou, para estar em harmonia com a moda, a onda politicamente incorreta; era mau gosto mesmo.

Agora, Rafinha resolveu atacar na bancada do CQC, programa da Bandeirantes. Soltou um comentário bizarro, digno de adolescente em meios aos seus iguais quando ainda experimenta a falta de limite – ou de exercício da inteligência –  e o desejo de transgredir minimamente: falou que comeria a cantora Wanessa Camargo e a criança que se forma em seu ventre. Foi de uma boçalidade ímpar.

Depois disso, Rafinha foi afastado a partir dessa semana do CQC, mas parece que isto somente lhe deu mais ânimo de continuar seu deleite no oceano da ignorância: já postou comentários na internet debochando de sua suspensão (por ora, e ao que tudo indica, temporária), recebeu apoio de seus seguidores no twitter (são mais de 3 milhões) e, agora, leio no blog do Nassif o defesa de seu pai, que reproduzo a seguir:

A defesa do pai de Rafinha

Por julio roberto hocsman
Prezados Leitores
Após as várias críticas ao Rafinha surgiu,, uma entre tantas outras,  que me obriga manifestação.Filhinho de papai. Esta posta-se em primero lugar entre as mais equivocadas. Tosco, grosseiro,piadista pesado vá lá, são os riscos da atividade ,mas filhinho do papai definitivamente não. E digo isto na qualidade honrosa de seu pai! Na qualidade de quem sempre esteve  e estará ao seu lado para o que der  e vier. Vos digo tambem como pai e amigo que o Rafa jamais se colocará como vítima desta história. Ele é um humorista de texto própio, que saiu aqui do Sul há 10 anos e venceu na mais competitiva cidade do Brasil. Talvez aí resida o foco maior da desmesurada raiva contra ele.
p>Raiva de seus própios colegas de televisão. Alguns em início(não sei se passarão disto) e outros com carreiras já concluidas. Uns e outros que já pousaram de democratas e hoje se arrastam em busca de favores do que de mais retrógado ainda persiste em existir neste pais. Nós da familia estamos tristes,  não há como negar. Tristes por ele e pela constatação do grande espaço que a mediocridade ainda ocupa entre nós. E é dela que o mal se alimenta e não das piadas do meu filho. Mas felizmente , assim como o Miguel do Rosario existem muitos outros inconformados e é isto que nos anima. Mas como diz o canto alegretense vai Rafinha , segue o rumo do teu própio coração. E um beijo bem grande nele. Teus pais Julio e Iolanda e tua irmã bárbara.

Bem, até posso entender a manifestação de apoio de um pai nos momentos de dificuldade dos filhos. Sou pai “recente” e já experimento os efeitos do amor que nutrimos por quem dedicamos nossa vida. Não obstante, apoio não deve ser sinônimo de lançar-se ao erro, quando deveríamos salvar alguém dele. O pai de Rafinha Bastos, no afã de ajudar seu filho, corrobora com a sua boçalidade.

Ora, Bastos não tem que se colocar na condição daquilo que, definitivamente, não é. Ao assumir uma postura tola, adolescente, produzindo lixo como pretenso humor, quis manter-se na condição de agressor. Nada, absolutamente nada, o permite posar – ou “pousar” como diz seu pai – como vítima nesse episódio. Outra: a reprovação ao comportamento bronco de Rafinha não pode ser visto como simples reação de ciumezinho ególatra de seus iguais e outros frustrados por ele ter vindo do Sul e vencido no olho do furacão. Isto é uma bobagem enorme. Rafinha errou. Errou ao optar pela boçalidade, pelo mau gosto, pela estupidez, pelo desejo de vencer a qualquer custo. Este é o fato.

Fala ainda o pai em “constatação do grande espaço que a mediocridade ainda ocupa entre nós”. Tem toda razão, ainda que a mira de sua crítica esteja torta. A mediocridade vem reinando e gente como Rafinha, que opta pela baixeza para alcançar os seus objetivos, é representante dela.

Espero, sinceramente, que o acontecimento sirva para que Bastos tire algum proveito, capaz de fazê-lo crescer enquanto ser humano. Até então admirava o seu trabalho, mesmo como humorista. Sua performance no bom programa “A Liga”, em nada lembra esse Rafinha estúpido, representante da ignomínia reinante em nossos tempos. Quero acreditar, ainda, em seu talento para além da baixeza. Humor pode ser ácido, sarcástico, sem apelar à mediocridade.