domingo, 18 de julho de 2010

Não coronel, a escola não é irrelevante


Madrugada de domingo, 17/07/2010. Faço minhas consultas habituais na internet. Ao abrir o site do Terra, me deparo com uma intrigante manchete: “Escola é irrelevante”, diz coronel ao negar erro em tiroteio no Rio”. Clico no link e vou até a matéria para entender a fala do militar, crendo que possa encontrar algo que contrarie a ignomínia da afirmação. Apenas me estarreço mais ainda.
Antes, um esclarecimento para os possíveis desavisados. Na última sexta-feira, em mais uma daquelas operações já “clássicas” quando se pensa na opção do puro enfrentamento da PM carioca, durante um tiroteio entre a polícia e traficantes uma criança de 11 anos foi baleada e morta dentro de uma unidade do Ciep em Costa Barros, na Zona Norte do Rio. Segundo informações de testemunhas, o tiro teria partido de policiais à paisana. Volto ao ponto.
Devido ao fato, o comando da PM carioca exonerou o comandante do 9º BPM (Rocha Miranda), coronel Fernando Príncipe. No entanto, o policial de alta patente não admitiu erro algum na operação. Reproduzo algumas declarações dele:
"A ação começou às 8h20, havia 100 homens comandados por um major. Tínhamos como alvos a comunidade de Final Feliz e os morros da Pedreira, Lagartixa e Quitanda. O bandido é inconsequente, faz disparos em qualquer direção. Tivemos que trocar tiros. Não há outro jeito de se fazer operação. Ou é assim ou, então, não faz. A inteligência diz que o bandido ele está lá dentro (da favela). Temos que ir lá. O que a polícia deve fazer? Não fazer nada é prevaricação".
"O Ciep Rubens Gomes (onde aconteceu o fato) é irrelevante. Se não houver Ciep, haverá uma casa, uma fábrica. Mas o pior é não realizar operações".
"Eu lamento muito, claro. Mas não fui responsável por ela, meus policiais também não. Com a minha exoneração, o comando mostra que não assume a responsabilidade de seus comandados. Não foi a primeira vez que um estudante foi atingido naquele Ciep, e o poder público nunca providenciou a blindagem do prédio. Abomino a morte de inocentes, mas isso, eventualmente, vai acontecer."
A finalidade aqui não é crucificar a polícia ou mesmo o policial. No entanto, as declarações do coronel evidenciam o quanto a PM anda embotada por um conceito que permeia sua ação. Perdas de vidas inocentes acabam sendo apenas um efeito colateral desta – e não uma tragédia ocasionada, sim, por erros. O coronel talvez não perceba, mas sua fala é um tanto quanto eloqüente. A ação da polícia não tinha por alvo reprimir os traficantes. Segundo o coronel, os alvos seriam a comunidade Final Feliz e os morros citados. Logo, faz sentido que se um inocente morra; trata-se de uma simples eventualidade...
Ainda conforme o coronel, os bandidos são inconseqüentes por disparar em qualquer direção. Pergunto: numa troca de tiros entre polícia e marginais, a primeira, sob pressão, sempre tem o alvo bem definido? E ainda que o tivesse, quão seria conseqüente uma operação perto de alvos tão vulneráveis como uma escola, sabendo-se, como diz o coronel, do alto risco de tiroteio com marginais dispostos a tudo? Para ele, não entrar nas comunidades para enfrentar traficantes é prevaricação. Esquece que causar prejuízo ou sofrimento aos membros da sociedade, que deveriam ser defendidos pelo Estado por ele representado naquele momento, também é prevaricar.
O Ciep, senhor coronel, não é irrelevante. Como não seria, em seu lugar, uma fábrica, um posto médico, o batalhão da PM ou a sua casa. Não é irrelevante, senhor coronel, pois lá existem vidas que são vítimas tanto da irresponsabilidade não somente dos marginais, mas também do poder público, que representado por pessoas como o senhor, não cumpre o seu papel como realmente deveria fazer. Perdas de vidas inocentes ou mesmo de servidores públicos tentando cumprir o seu dever é um horror, não eventualidade.
Pouco importa de onde tenha vindo o tiro. É preciso repensar o procedimento. A população está cansada de ser vítima da eventualidade incompetente do poder público.

sábado, 17 de julho de 2010

A Copa acabou?


A Copa terminou e só agora registro meu olhar sobre ela. Os alemães, que encantaram até trombar com a Espanha, ficaram em terceiro. Venceram o Uruguai num jogo até emocionante para uma disputa de 3° lugar. O time sulamericano, por sinal, acabou sendo a surpresa de uma Copa que começou a empolgar mesmo a partir das oitavas. Além de chegar em quarto, o Uruguai emplacou o jogador da Copa: Diego Fourlan.
Os campeões foram os espanhóis, pela primeira vez. Numa boa disputa contra a eficiente e bem arrumada Holanda, venceram por 1 x 0 a 03 minutos do 2° tempo da prorrogação! Ainda bem. Outra final seguida disputada nos pênaltis não seria agradável. No fim das contas prevaleceu o time mais consistente. Particularmente, preferiria ver os alemães vencendo o título, pelo que apresentaram. Mas pensando objetivamente, é menos um tetra campeão no encalço da seleção brasileira. Talvez o problema do alemães tenha sido a “dungada” justamente quando precisavam continuar sua blitzkrieg futebolística...
A Espanha, mesmo com um futebol até agradável de ver, às  vezes não empolga pela economia de gols e falta de um grande matador – uma ironia, tratando-se do país da infame tradição das touradas. Se tivesse um Romário no ataque, com o meio campo que tem, talvez seria irresistível.
Uma das maiores surpresas da Copa acabou nem estando no continente africano. O polvo Paul, numa daquelas armações do que alguns chamam de destino, acertou todos os resultados dos jogos que foi consultado. Da Alemanha, o molusco oráculo se tornou celebridade.
Por fim, um registro curioso: o único time invicto da Copa acabou sendo a Nova Zelandia, que saiu na primeira fase sem perder nenhum jogo; bem, também não venceu ninguém. Coisas desse maravilhoso esporte que é o futebol.

domingo, 4 de julho de 2010

Cuidado “cus alemão II”; ou era uma vez uma Copa sulamericana


Hoje terminou mais uma rodada da Copa do Mundo 2010. O que estava sendo considerado um Copa sulamericana, haja vista a  maioria do continente marcando presença nas quartas de final, acabou tornando-se europeia. Dos quatro sulamericanos que estavam na disputa, sobrou apenas o Uruguai. Brasil, Argentina e Paraguai sucumbiram ante Holanda, Alemanha e Espanha, respectivamente.

Os paraguaios surpreenderam. Vinham apresentando um futebol extremamente defensivo, com a pior média de gols marcados entre os classificados para as fases eliminatórias da Copa, mas não se inibiram ante a badalada Espanha. Fortes na marcação e com um ataque presente, como não se viu nos jogos anteriores, acabaram por dar trabalho à Espanha.

A história poderia até ter acabado em tragédia espanhola, caso o atacante paraguaio Cardozo não tivesse perdido um pênalti quando a partida ainda estava 0 x 0, nos primeiros quinze minutos da etapa final. Ironicamente, o atacante tinha sido lançado hoje como titular, após troca radical do técnico paraguaio de seis jogadores para a disputa contra a Espanha. Depois de muita disputa, os espanhóis conseguiram marcar um gol que parecia não querer ser marcado. Iniesta mandou a bola na trave, Villa pega o rebote e também manda na trave, com a bola desfilando caprichosamente sobre a linha do gol até encontrar a outra trave e finalmente entrar para o gol. O Paraguai lançou-se à frente, perdeu ao menos uma chance claríssima de gol, graças ao goleiro espanhol Casillas. Batalha marcante.

Os argentinos pareciam poder fazer frente aos alemães, pelo futebol apresentado. Mas foram  dizimados por uma blitzkrieg futebolística – e, ao contrário do que o celerado nazista sonhava, multiétnica. Antes de continuar, vale uma definição do termo, via Wikipédia:

Termo alemão para guerra-relâmpago) foi uma doutrina militar a nível operacional que consistia em utilizar forças móveis em ataques rápidos e de surpresa, com o intuito de evitar que as forças inimigas tivessem tempo de organizar a defesa. Seus três elementos essenciais eram a o efeito surpresa, a rapidez da manobra e a brutalidade do ataque, e seus objetivos principais eram: a desmoralização do inimigo e a desorganização de suas forças (paralisando seus centros de controle).

Foi o que se viu: ataques mortais que desnortearam os hermanos. Resultado: 4 x 0. Eu já tinha advertido, logo no início chocho da Copa, que a Alemanha tinha demonstrado um futebol, que para mim, era inédito. Das Copas que acompanhei, nunca tinha visto uma seleção alemã com futebol tão vistoso e ofensivo. Após dois atropelos, sobre a Inglaterra e Argentina nas oitavas e quartas de final, respectivamente, creio que a Alemanha confirma seu favoritismo ao título.

Quanto ao Brasil, o que falar que já não foi dito? Após um primeiro tempo impecável contra a Holanda e saindo em vantagem de 1 x 0, a seleção voltou estranhamente frouxa na marcação e na concentração. Tomou um gol absurdo, na única falha de Júlio César na competição e tendo participação de Felipe Mello, que cabeceou levemente contra a própria rede. Depois foi só destempero até culminar no segundo gol da Holanda e na expulsão de Felipe Mello – que demonstrou não merecer estar na Copa; não tinha noção alguma do que era estar ali.

Nem vale à pena crucificar o Dunga. O problema dele foi  falta de visão e o apego a tal convicção. Sempre digo que devemos tê-la. Mas nunca nos tornarmos escravos dela; podemos cometer pecados gravíssimos. E a bem da verdade, acho que nem cabe tanto espanto a eliminação do Brasil. Afinal, a seleção nada demonstrou de tão empolgante a ponto de criar certezas de que o sexto título viria agora. Poderia ser campeão? Claro. Força para isto até tinha, somente não soube como usá-la. E o jogo contra a Holanda mostrou a realidade.

Resta esperar os jogos das semifinais dentro de alguns dias. Numa perspectiva objetiva, gostaria de ver a Holanda ou a Espanha ganhar seu primeiro título. De outro modo, afetivamente, seria gratificante ver o Uruguai vencendo e destronando os europeus. Mas racionalmente, justo seria a Alemanha levar para casa o seu quarto título, ainda que se aproxime do Brasil. Mesmo sendo ruim de pitaco – minha aposta num time sulamericano campeão deve dar com burros n’água –, não vejo uma final diferente de Holanda e Alemanha, com vitória para esta.