Madrugada de domingo, 17/07/2010. Faço minhas consultas habituais na internet. Ao abrir o site do Terra, me deparo com uma intrigante manchete: “Escola é irrelevante”, diz coronel ao negar erro em tiroteio no Rio”. Clico no link e vou até a matéria para entender a fala do militar, crendo que possa encontrar algo que contrarie a ignomínia da afirmação. Apenas me estarreço mais ainda.
Antes, um esclarecimento para os possíveis desavisados. Na última sexta-feira, em mais uma daquelas operações já “clássicas” quando se pensa na opção do puro enfrentamento da PM carioca, durante um tiroteio entre a polícia e traficantes uma criança de 11 anos foi baleada e morta dentro de uma unidade do Ciep em Costa Barros, na Zona Norte do Rio. Segundo informações de testemunhas, o tiro teria partido de policiais à paisana. Volto ao ponto.
Devido ao fato, o comando da PM carioca exonerou o comandante do 9º BPM (Rocha Miranda), coronel Fernando Príncipe. No entanto, o policial de alta patente não admitiu erro algum na operação. Reproduzo algumas declarações dele:
"A ação começou às 8h20, havia 100 homens comandados por um major. Tínhamos como alvos a comunidade de Final Feliz e os morros da Pedreira, Lagartixa e Quitanda. O bandido é inconsequente, faz disparos em qualquer direção. Tivemos que trocar tiros. Não há outro jeito de se fazer operação. Ou é assim ou, então, não faz. A inteligência diz que o bandido ele está lá dentro (da favela). Temos que ir lá. O que a polícia deve fazer? Não fazer nada é prevaricação".
"O Ciep Rubens Gomes (onde aconteceu o fato) é irrelevante. Se não houver Ciep, haverá uma casa, uma fábrica. Mas o pior é não realizar operações".
"Eu lamento muito, claro. Mas não fui responsável por ela, meus policiais também não. Com a minha exoneração, o comando mostra que não assume a responsabilidade de seus comandados. Não foi a primeira vez que um estudante foi atingido naquele Ciep, e o poder público nunca providenciou a blindagem do prédio. Abomino a morte de inocentes, mas isso, eventualmente, vai acontecer."
A finalidade aqui não é crucificar a polícia ou mesmo o policial. No entanto, as declarações do coronel evidenciam o quanto a PM anda embotada por um conceito que permeia sua ação. Perdas de vidas inocentes acabam sendo apenas um efeito colateral desta – e não uma tragédia ocasionada, sim, por erros. O coronel talvez não perceba, mas sua fala é um tanto quanto eloqüente. A ação da polícia não tinha por alvo reprimir os traficantes. Segundo o coronel, os alvos seriam a comunidade Final Feliz e os morros citados. Logo, faz sentido que se um inocente morra; trata-se de uma simples eventualidade...
Ainda conforme o coronel, os bandidos são inconseqüentes por disparar em qualquer direção. Pergunto: numa troca de tiros entre polícia e marginais, a primeira, sob pressão, sempre tem o alvo bem definido? E ainda que o tivesse, quão seria conseqüente uma operação perto de alvos tão vulneráveis como uma escola, sabendo-se, como diz o coronel, do alto risco de tiroteio com marginais dispostos a tudo? Para ele, não entrar nas comunidades para enfrentar traficantes é prevaricação. Esquece que causar prejuízo ou sofrimento aos membros da sociedade, que deveriam ser defendidos pelo Estado por ele representado naquele momento, também é prevaricar.
O Ciep, senhor coronel, não é irrelevante. Como não seria, em seu lugar, uma fábrica, um posto médico, o batalhão da PM ou a sua casa. Não é irrelevante, senhor coronel, pois lá existem vidas que são vítimas tanto da irresponsabilidade não somente dos marginais, mas também do poder público, que representado por pessoas como o senhor, não cumpre o seu papel como realmente deveria fazer. Perdas de vidas inocentes ou mesmo de servidores públicos tentando cumprir o seu dever é um horror, não eventualidade.
Pouco importa de onde tenha vindo o tiro. É preciso repensar o procedimento. A população está cansada de ser vítima da eventualidade incompetente do poder público.

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