Cena 1
Vou até ao bebedouro na repartição pública onde trabalho. Não tem água disponível. Alguém me avisa: instalaram um filtro numa outra parte do corredor. Me animo e penso ironicamente: finalmente, um pouco de “civilização” ao menos na forma de beber água. Quando chego até a novidade, estranheza: o filtro foi instalado numa altura incômoda para todos.
As moças responsáveis pelo enchimento das garrafas d’água deveriam fazer uma exigência aos setores: garrafas somente transparentes. Do contrário, somente saberão que a garrafa encheu ao serem surpreendidas por água entornando.
Se resumisse a isto, o problema seria uma questão de adaptabilidade. Acontece que no andar temos um colega paraplégico, cadeirante. A altura do infalível filtro simplesmente não permite a Anderson, nosso colega sobre cadeira de rodas, executar um ato que sempre fez como qualquer um de nós: encher o próprio copo para tomar água. Logo quando me deparei com o aparelho, o apelidei de o anti-Anderson. Outros colegas também já estão o reconhecendo da mesma forma.
Cena 2
Chego para almoçar no restaurante que freqüento regularmente. Passo pelo caixa, à minha esquerda, logo na entrada. Ultrapasso algumas mesas com clientes e vou até a pia à minha direita, pouco antes dos cinco degraus que levam os clientes até as comidas. Confesso quase não utilizá-la. Um péssimo hábito que insiste em me acompanhar.
Qual não foi minha surpresa e horror ao ler sobre a torneira um cartaz, até então inédito no local, com os seguintes dizeres: “Favor não fazer higiene bucal nesta pia”. Recusei-me a acreditar que alguma criatura minimamente educada, fosse capaz de promover um ato grotesco em meio aos seus pares e num local público. E ninguém pode acusar o restaurante de “lugar de peão”, como poderia pensar um desses esnobes por aí.
Por sorte, nunca presenciei tal absurdo, mesmo sempre almoçando nas redondezas da maculada pia. Mas fiquei a imaginar a cena horrenda.
Cena 3
Fim de expediente. Hora de voltar para casa ou encaminhar-se até a faculdade. Ou quem sabe, tomar o bom e velho chope. Não importa. Se você é desprovido do próprio automóvel ou não pode tomar o chamado ônibus seletivo, prepare-se para a “sensação sardinha”. Ou seja: encarar coletivos lotados, abarrotados de gente.
Contudo, às vezes o coletivo está cheio e não lotado. Por causa de um fenômeno que ainda estou tentando compreender, as pessoas insistem em se amontoar na primeira metade do ônibus e deixar a parte posterior com espaço suficiente para acomodar gente e desobstruir a entrada.
Hoje, ao subir no coletivo, me deparei com a velha cena: a entrada e a parte logo após a roleta incapaz de receber mais gente. Estico-me nas pontas dos pés e avisto a parte de trás. Caberia ao menos mais umas dez pessoas, o que permitiria que a entrada não ficasse impraticável, a ponto de o motorista ter de passar pelos pontos sem fazer parada, acreditando numa possível lotação do veículo.
Peço licença às moças estagnadas junto à roleta. Elas reclamam, dizem que é impossível dar um passo à frente. Argumento que o fundo do coletivo ainda cabe muitas pessoas, bastam desejarem não ficar amontoadas. Contrariadas elas me dão passagem. Peço licença aos que insistem em continuar a prática sardinha, não sem antes dizer como pode as pessoas insistem em se espremer, enquanto a parte final do ônibus está com espaço.
Ao chegar ao fundo do coletivo, olho para aquele ajuntamento de gente que atrapalha outras pessoas, além de induzir o motorista a deixar outros trabalhadores cansados como elas para trás, e penso: falta senso de cidadania. Não irei nem comentar sobre a falta de gentileza, dentro dos mesmos coletivos lotados, quando se está frente – mais especificamente, ao lado – a alguém em pé com bolsas cheias ou sacolas com peso. A indiferença é total.
Minha utopia é a civilização plena. E esta seria tão somente uma condição alcançada por pessoas com a percepção total do exercício da cidadania, em seus mínimos detalhes. A cada simples ato humano, ao menos aqui no Brasil, vejo que estamos distantes da civilidade. Somos primatas sob a égide de uma economia dita de primeiro mundo e com acesso a alta tecnologia.

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