segunda-feira, 12 de abril de 2010

A paranoia como método


A internet é pródiga em disseminar acusações e inconformismos que podem se revelar mistificações ou pura teoria conspiratória. Público para absorver o material não falta. Logo, temos a paranoia coletiva. Blogueiros e páginas para disseminarem tal praga existem aos montes, independente do espectro ideológico seguido. Depois temos que ficar ouvindo um suposto bem informado na sala de aula, na fila do banco ou mesas de restaurantes inflando o peito e repetindo a patacoada, distorcendo a realidade e empobrecendo o debate.

Eduardo Guimarães, blogueiro lulista e implacável crítico da direita, é um desses tipos que adoram potencializar suspeitas, transformá-las em certezas e produzir fatos imperfeitos acerca do mundo real. A mais nova dele diz respeito à cobertura da rede Globo  dos anúncios das candidaturas presidenciais de Dilma Rousseff e José Serra.

Segundo o blogueiro, a Globo escancarou nas suas preferências pela candidatura tucana, ao transmitir uma cobertura negativa da petista e uma diametralmente oposta do tucano. Assisti as duas e antes de dizer o que eu acho, devo esclarecer que tenho opinião quase similar ao meu homônimo habituado a manias persecutórias da imprensa. Não obstante, quase similar não é igual.

Também vejo a imprensa brasileira com ressalvas. Os donos dos meios de comunicação têm seus interesses e vivem lutando para que eles não sejam atingidos. E isso pode ser prejudicial para a sociedade, haja vista que a verdade dos fatos pode ser manipulada quando interesses estiverem em jogo. Principalmente quando se tem como receptor das notícias uma massa quase acrítica e sem vontade de interpretar o que lhe é transmitido. Volto ao ponto.

No caso em questão, vejo como mais um delírio do Eduardo. Ora, que a Globo pode ter sua preferência por Serra e deixar isto influenciar na transmissão, não tenho dúvidas. Mas é preciso estar afastado de dogmas ideológicos para analisar o fato em sua inteireza e não reproduzir distorções da realidade. Guimarães não faz isso – ou é incapaz de pensar os acontecimentos em sua totalidade.

Ele reclama de que a Globo noticia sobre as propostas radicais do PT, o combate aos monopólios de comunicação, a presença de João Paulo Cunha, José Dirceu e José Genoíno – todos respondendo processo no caso mensalão –, entre outros pontos polêmicos. Faz questão de ignorar a fala do presidente do PT José Eduardo Dutra sobre os críticos das propostas – talvez ainda existam pelegos na Globo, como o Azenha e o Paulo Henrique Amorim foram um dia –, bem como a explicação ao final da matéria por parte do apresentador esclarecendo que os pontos aprovados no congresso petista ainda serão discutidos quanto ao que fará parte ou não do programa de governo de Dilma Rouusseff.

Apesar do choro delirante de Eduardo Guimarães,  tudo o que foi exposto na matéria supostamente anti-petista  é fato e de muita importância. Ora, se o Sr. Eduardo e demais petistas não quisessem a repercussão de tais aspectos, não os fizessem presentes no evento. O PT, em essência, insiste no enfrentamento das dificuldades sociais com cacoetes autoritários que nublam o pensamento de grande parte da esquerda. Depois lamenta a posição de quem o contraria. E aí apela a mistificação.

Guimarães força tanto à realidade que quando faz citações de trechos das matérias, expõe partes de falas de políticos do PSDB, como FHC, exaltando Serra e partes da fala do locutor da matéria sobre a cobertura petista, levando a quem não se deu ao trabalho de ver as duas matérias a entender que tudo saiu da pena dos redatores da Globo. Apela àquilo de que acusa seus adversários: a falsificação.

Talvez o blogueiro deve ter ficado suscetível quando viu Aécio Neves aparecer na cobertura do encontro tucano – o mesmo Aécio que petistas apostavam como desestabilizador dos próprios tucanos –, desconstruindo a falsa imagem do PT como amigo da democracia quando o país dele precisava, logo após o fim da ditadura militar, ao se recusar o apoio à candidatura de  Tancredo Neves, além de se posicionar contra o Plano Real e outras medidas que hoje contribuíram para que o próprio PT obtivesse sucesso em seu governo.

Ademais, Eduardo faz de conta de que no final da matéria supostamente pró-tucana, o jornalista  William Waack não citou a contestação do presidente do PT à fala do governador mineiro em relação à atuação do seu partido na restauração da democracia.

Gente como Eduardo Guimarães tenta construir uma crítica legítima a partir de distorções do real. Apenas contribuem para com a indigência intelectual reinante na sociedade.

Nestes termos, não contem comigo.

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