“É que esse corpo humano é reciclável, amando fica mais amável”
Arnaldo Antunes
Não se falou, e ainda se fala, de outro assunto. O lixo vomitado pelo representante de certa parte do Brasil, deputado Jair Bolsonaro, o Boçal, na 2ª feira da semana passada no programa CQC ecoou: alguns defenderam literalmente seus “argumentos”, outros apenas o seu direito de expelir fezes pela boca em forma de palavras e muitos quiseram sua cabeça. Particularmente não desejo ao Sr. Boçalnaro nada além do que a legalidade pode lhe impor. Meu sonho é que gente como ele vá sumindo da vida pública e seja esquecido num limbo qualquer – o que é algo difícil, haja vista o número considerável de “boçalnaretes” espelhados por aí.
Ontem o programa CQC resolveu dar oportunidade ao cidadão de explicar suas bobagens. Apenas reforçou sua imagem troglodita. Como disse durante a semana que poderia ter se equivocado aqui e ali, talvez até mesmo ter sido vítima de alguma manipulação do programa, foi entrevistado. E lá voltou com suas sandices, do tipo ninguém tem orgulho de filho gay, que seus filhos são muito bem educados para se tornarem homossexuais, entre outras mais. Por fim, para negar o seu racismo, mostrou a foto de um rapaz pardo – considerado negro nos dias em curso – e perguntou a Danilo Gentilli, que o entrevistava, de que cor era o rapaz. Mediante a resposta da suposta negritude do jovem, perguntou como seria racista se aquele era irmão de sua mulher. Nada como ter alguém com a tez um pouco morena por perto para justificar o seu não racismo.
Ao final de mais uma seção de tolices, Marcelo Tas, apresentador do programa, fez algumas considerações. Falou de certas manipulações de seu comentário após a entrevista do deputado no boçal dia, sobre o direito de expressão, entre outras coisas mais. Um momento fulminante foi quando mostrou uma foto em que aparecia com uma jovem, revelando que ela vivia nos EUA, fora aprovada em uma das principais universidades daquele país, era lésbica e sua filha, de quem se orgulhava muito. Coitado do Boçalnaro...
Claro, nada vai mudar o universo tacanho e truculento desse Sr. Mas dar voz a ele acabou sendo uma boa, pois tornou-se conveniente pensar que tipo de país vivemos. O deputado já foi eleito diversas vezes. Tem um eleitorado cativo, que compartilho de sua visão de mundo boçal. Ora, ser contra cotas, por exemplo, qualquer um pode ser. Eu mesmo, mestiço - para ficar ao gosto de Darcy Ribeiro- , criado e educado em meio à pobreza, não vejo com o mesmo entusiasmo de muitos esse paliativo que pode resolver parte do problema, mas pouco faz por uma nação culturalmente deficiente – não por conta do nível de ensino superior em si, que também não é lá essas coisas nos dias atuais, mas por causa da desestrutura na rede pública, nos ensinos básico e fundamental.
Todavia um pouco de consistência ajuda. O deputado, na ocasião de suas opiniões grosseiras, disse não ter coragem de entrar em avião pilotado por cotista ou ser operado por um deste. Nunca vi argumento mais tosco e estúpido. Como se aviões não caíssem desde sempre e médicos, vindos de famílias abastadas, onde pais presentes, como o Sr. Jair, não os deixam se tornar gays(?!), não cometessem barbáries.
O Brasil ainda tem muito a “civilizar-se”. Esterilizar a “produção” de Boçalnaros com muita educação, cidadania e tolerância é um desafio hercúleo, para espíritos livres e comprometidos com a democracia.

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