Ainda estamos todos perplexos e abalados após a selvageria perpetrada por um desequilibrado numa escola do Rio de Janeiro. Porém, é preciso mirar no equilíbrio e na razão para não deixar os mais diversos debates tomarem rumos de pura emoção ou serem eivados por idelogias. Pior: controlar a emoção para que certas reações que se querem legítimas não descambem para simples selvageria, aproximando-se, assim, do objeto de repulsa - atacar e depredar a casa dos parentes do assassino é algo justo?
Desse modo, muito me anima ler um artigo, que reproduzo abaixo, de autoria do sociólogo e colunista do Terra Magazine Edmilson Lopes Júnior acerca do ocorrido e do mercado de armas. Afinal, os salvadores do planeta - e aí incluem-se Rede Globo, Sarney, muitos petistas, etc -, diante da tragédia de Realengo, já encontraram um culpado: o mercado de armas. Nem quiseram colocar em profundidade o debate sobre a segurança nas escolas, a violência da juventude, o combate ao mercado ilegal de armas, entre outros pontos mais urgentes - e que pesariam muito na conta de políticos. Preferiu-se a facilidade de culpar o comércio legal das armas e jogar à culpa nas costas de quem votou a favor deste.
Não vou entrar em detalhes sobre o que eu acho ou deixo de achar sobre o comércio de armas. Por mim, elas somente estariam nas mãos das forças armadas para a defesa de nosso território. Mas a realidade é muito mais dura e cruel do que o meu desejo utópico. Logo, não acredito que simplesmente proibir a venda de armas aos cidadãos seja o ponto principal para combatermos essa violência que parece incrustar-se cada vez mais em nossa cultura. Segue o artigo.
O massacre de Realengo e o mercado de armas
O massacre de crianças em uma escola no Rio de Janeiro fez erodir muitas de nossas certezas e convicções. Dentre estas, a idéia de que essas tragédias eram ocorrências de outros países, não do nosso. Diante de situações idênticas, ocorridas nos Estados Unidos, por exemplo, reagíamos com uma indisfarçável superioridade: entre nós, dizíamos, esse tipo de coisa não teria lugar. Na quinta-feira, em meio ao sofrimento e a sensação de impotência, descobrimo-nos tão vulneráveis quanto americanos, chineses ou europeus, quando tragados por acontecimentos assemelhados.
Na busca inútil em compreender o incompreensível e em fornecer sentido ao que destituído de sentido é, alimentamo-nos das explicações sem convicção e pouco convincentes dos especialistas do plantão. Se a história do assassino parece oferecer referentes e ocorrências que corroborem a elaboração de um perfil psicológico singular (um psicopata), os sofrimentos derivados do enfrentamento, na adolescência, do bulliyng escolar não sustentam uma explicação mais substantiva sobre a tragédia que se abateu sobre Realengo. Angustiados, perguntamo-nos, assim como pais, parentes e amigos das crianças cujas vidas foram tão brutalmente arrancadas: por quê? A ausência de respostas provoca desorientação. Queremos algo em que nos agarrar para evitar que o mal se repita.
Alguns políticos, atentos à necessidade de mostrar que "algo está sendo", trazem novamente à baila a discussão sobre a proibição do comércio de armas. Há meia década, a mesma sociedade que hoje lamenta a tragédia optou, em plebiscito, contra a ilegalidade desse negócio. É óbvio que uma questão como essa deve estar sempre em discussão, especialmente em um país que ainda detém uma das mais altas taxas de homicídios de mundo. E esses homicídios resultam do porte de armas de fogo pelos assassinos, sabemos todos. Mas reavivar esse debate ajuda-nos muito pouco nessa hora. Ora, não como negar que, mesmo que fosse ilegal o comércio de armas, o assassino de Realengo não teria tido dificuldades em adquirir as suas armas.
O debate fundamental, e sobre o qual políticos e gestores de segurança têm, sim, muito a dizer, é aquele a respeito do mercado ilegal de armas. Irmão siamês do tráfico de drogas, o tráfico de armas estrutura-se em nichos e hierarquias delimitadas. Funciona também em uma zona gris de quase legalidade, com certa legitimidade social. A punição severa, já prevista em lei, dificilmente atinge os atores desse mercado. Em conseqüência, em todos os recantos do país, conseguir uma arma ilegal é coisa das mais triviais.
É tão grande a condescendência social para com o comércio ilegal de armas no Brasil que é possível mesmo identificar certa moralidade subjacente às suas transações: as armas aí negociadas serviriam para a proteção das pessoas. Foi esse o discurso esfarrapado produzido pelos intermediadores da compra das armas utilizadas pelo assassino de Realengo. Obviamente, como sói ocorrer em outros mercados ilegais, as elaborações justificadoras das ações, por mais destituídas de crédito que essas sejam, sempre dizem algo sobre o entorno social que as consome. No caso, a idéia de que proteção pessoal se conjuga com porte de armas. Na prática, a coisa se passa de forma bem diferente: as armas negociadas nesse comércio alimentam uma espiral de crimes.
A facilidade com que jovens e adolescentes conseguem adquirir uma arma no Brasil é estarrecedora. Um orientando, envolvido em uma pesquisa a respeito dos atores da violência na Zona Norte de Natal, com base nas entrevistas realizadas com jovens e adolescentes com algum envolvimento em atividades delituosas, pode comprovar o quanto era banal, quase natural, para os seus interlocutores, o ato de aquisição de uma arma.
Mais do que alimentar uma discussão ideológica, propícia à produção discursiva demagógica e inócua, a respeito da proibição do comércio legal de armas, a tragédia de Realengo deve nos levar a classificar como hediondo e socialmente inaceitável o criminoso mercado ilegal de armas que funciona quase abertamente de norte a sul deste país. Fazer valer as leis já existentes a respeito da matéria, nesse sentido, seria um bom começo.
Edmilson Lopes Júnior é professor de sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Fale com Edmilson Lopes Júnior: edmilsonlopesjr@terra.com.br
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5068443-EI17080,00-O+massacre+de+Realengo+e+o+mercado+de+armas.html
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