Que a TV é objeto de controvérsia, todos os envolvidos de alguma maneira com ela em toda a sua dimensão sabem. Devo dizer, quase todos. Pelas evidências, um de seus principais “motores”, o telespectador, não tem a real percepção do alcance das sedutoras imagens que ultrapassam a linha divisora entre a tela do objeto e os recintos onde chegam “vazando” os olhos de quem as vêem e terminando por aninhar-se em cérebros desavisados. Quais os impactos daquilo que a TV oferece às pessoas é matéria para estudos e pesquisas, não sendo este o foco deste escrito. Opto por lançar uma crítica a partir de uma premissa leiga; um desabafo de um cidadão já sem ar perante tanta mediocridade pululando a cada milésimo de segundo na caixa eletrônica de caos chamada televisão.
Antes de prosseguir, devo registrar que não a culpo por todos os males. Vez ou outra pode emanar alguma esperança da tela. Nem estou aqui para advogar pelo famigerado controle social que deseja alguns ideólogos que se assustam ante a liberdade. Porém, não há como enxergar a televisão como simples entretenimento. Ela vai um pouco mais além e na relação com a sociedade pode contribuir decisivamente para a tomada de decisões, bem como ditar padrões comportamentais. E no interior de uma massa com poder crítico quase nulo, isto pode ser deletério. Mas volto-me ao meu intento.
Numa dessas tardes de domingo, acessando a internet de meu PC instalado próximo da TV, torno-me telespectador involuntário da programação oferecida pelas chamadas redes abertas. Enquanto minha esposa sai navegando pelo limitado “lago” de canais oferecidos, ia me deparando com toda a sorte de esquisitices e bobagens da limitada – em todos os sentidos imagináveis possíveis – programação da TV brasileira.
Num dos programas, da rede Record – do qual não guardei o nome, mas pouco importa; em essência é a mesma previsível coisa –, era transmitida a indelével e infalível pegadinha. Uma moça de saia curta numa calçada solicitava a um transeunte ajuda para segurar a escada, enquanto ela subia para verificar algo. Enquanto o desavisado e solícito cidadão se via tentado a levantar os olhos e tirar algum proveito da surreal situação, o falso marido da moça aparecia da sacada do prédio e, ante a situação criada, arremessava ovos no bom samaritano com segundas intenções.
Pensei: quanta originalidade. Já tinha assistido aquilo antes. Bem antes, num dos programas apresentados por Silvio Santos no SBT, há quase vinte anos, num mesmo dia de domingo! Afora as reprises. Fingi relevar, afinal diz um ditado que “nada se cria, tudo se copia”, ou algo semelhante.
Não demora muito e minha esposa aporta no SBT. Um clone não vingado de Silvio Santos tocava um programa que outrora pertencia a Gugu Liberato. Em um atestado de que a televisão decai e o faz com especial denodo aos domingos, anunciava uma das celebridades “miojo” – se me faço entender... – que surgem em dias de you tube. Tratava-se de um jovem que se apresenta neste site dedicado a reproduzir vídeos de todo o mundo, dando supostas dicas de como “pegar” mulher, de como se comportar na “balada”, de como malhar corretamente para se obter os músculos que ele ostenta, dentre outras coisas mais.
O rapaz já é um velho conhecido daquele site e é acusado de aplicar substâncias diretamente na musculatura para lhe dar uma aparência vigorosa – algo que lhe rendeu a alcunha de Rodrigo ADE, uma referência a substância utilizada. No entanto, quem puder acessar algum dos vídeos do jovem, percebe que ao contrário de músculos vistosos, ela está transformando em uma massa humana disforme, com braços, peitos e ombros bizarros.
Como o importante é a audiência e o espetáculo, por mais grotesco que possa ser, o jovem foi recebido como celebridade pelo apresentador, responsável por gracejos com o convidado, que me pareceu sofrer de algum desequilíbrio. Tudo oferecido ao público como simples atração para as famílias numa tarde de domingo. Imaginei: um freak show, mais ainda assim entretenimento para a família.
Após a apresentação exótica do rapaz, mais uma vez o controle nos levava para a rede Record. Estava montado no palco do programa o tal pole dance, onde uma mulher pode fazer diversos contorcionismos numa barra vertical de metal, exibindo-se sensualmente. O que antes era assistindo em cenários de boates eróticas dos filmes, atualmente tornou-se opção para estimular a relação entre os casais, logo depois de a atriz Flávia Alessandra encarnar uma personagem de novela que fazia strip tease para sobreviver. Naquele domingo, a apresentadora levava diversas praticantes do pole dance para exibir-se, dentre as quais uma dona de casa que se apresentaria em pleno palco para o marido – e também para a plateia e os telespectadores.
Depois de tanta riqueza cultural (sic), achei por bem sugerir à minha esposa desligar a TV e fazermos uma sesta. Afinal, diante da original demonstração de capacidade de entreter das emissoras, achei por bem não arriscar ver o Faustão, o Gugu ou mesmo o Fantástico. Temi pela falência de meu cérebro exposto a tamanha criatividade...
* Reproduzido no Observatório da Imprensa

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