sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Dinheiro (a)paga vexame?

Estava tranquilo em meu computador, selecionando algumas músicas para ouvir na tarde da véspera do Natal. Minha esposa, em meio aos afazeres diversos, assistia a TV. Logo após terminar o programa “A Fazenda”, ela inicia a inevitável troca de canais. Caiu no SBT e de repente ouço alguém “interpretando” uma velha canção do Rod Stewart.

Soava estranha aos meus ouvidos, mas imaginava ser mais um daqueles figuras que surgem nesses programas de fabricação de “ídolos” de churrascaria, que acham que agradam mesmo no karaokê. Ainda estava entretido com minhas músicas no PC. Quando não resisti mais ouvir aquela experimentação brega da canção de Stewart, olhei para a TV. E vi o autor do atentado: Roberto Justus! O empreendedor milionário pop star. Putz! Lembrei então que ele, muito provavelmente por estar entediado de tanto ganhar dinheiro, tinha resolvido ser cantor tempos atrás. O troço foi tão bizarro, que na ocasião mereceu matéria no Pânico na TV.

Como quem está no fogo é para se molhar, não pedi a minha esposa – que ficou tão abismada quanto eu – para mudar de canal. Queria ver até onde ia a pagação milionária de mico. Justus convidou então o tenor Aguinaldo Rayol para interpretar uma música de Frank Sinatra junto com ele. É chocante a experiência! Porra!, Justus é ruim demais! Parece estar eternamente ante um karaokê! Rayol, ao terminar sua participação, rasgou elogios a Roberto. Poderia ter elogiado e tal, conforme o protocolo - que nos permiti mentir solenemente. Mas preferiu iludir Justus. Disse que ele era talento!!!

Após o show surreal, volta Roberto Justus solo – melhor ele sozinho; assim evitava o constrangimento face aos profissionais do ramo. E o próximo acinte foi com “Epitáfio”, dos Titãs. Desnecessário comentar. Acabou o primeiro bloco. Minha esposa achou por bem procurar outra coisa. Ficou com o fantástico “Pequena Miss Sunshine”, que rolava na Globo.

Coloquei-me a raciocinar: em tempos onde o dinheiro compra tudo, será que os vexames também podem ser pagos? Pois só isso justifica um empresário bem sucedido, apresentador de TV, não se contentar com os seus êxitos e levar ao ar um show bisonho, onde se apresenta como cantor – algo que definitivamente ele não é.

Mas logo no início deu para entender o porquê de empreitada tão ousada. Justus contava como começou suas experiências musicais. Num final de semana em seu paradisíaco sítio, junto com os amigos, cantava num karaokê. Entre os convidados estava Afonso Nigro, ex-cantor do improvável grupo Dominó, um absurdo Menudo brasileiro, que encantava as garotinhas nos anos 80, e que hoje se dedica à "produção" musical. Foi esta criatura que encorajou Roberto Justus a desbravar o mundo da música.

De duas, uma: ou o Afonso é um daqueles puxa-sacos únicos ou viu uma oportunidade ímpar de ganhar dinheiro e aparecer novamente na mídia, ainda que de relance.

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