Sou um dos poucos não alinhados que reconhece o valor de algumas coisas escritas por Reinaldo Azevedo, articulista anti-esquerda da revista Veja. Por mais ferrenho que possa ser em suas críticas, não há como negar sua capacidade de instigar a nossa esquerda a pensar – ao menos a não dogmática. Mas Reinaldo, em sua cruzada anti-tudo-do-lado-de-lá, parece vez ou outra ser acometido por efeitos colaterais proporcionados por suas convicções.
Contra Lula, então, Reinaldo parece sofrer quase uma tara aversiva, tamanho o seu empenho para desqualificar o pensamento ilustre (sic) de nosso presidente. Se para os fiéis lulistas tudo o que o Messias Operário diz se verte em luz, para “hereges”, como Azevedo, é justamente o contrário: as trevas tomam o lugar.
Em seu artigo de hoje, sobre mais uma daquelas falas toscas de Lula, Reinaldo faz um tratado para acusar o presidente de ver virtude na violência da ditadura militar. Não vejo desta forma.
Ora, quando Lula diz que cada choque tomado por seus companheiros valeu à pena para chegarmos até aqui, nada mais está fazendo que elogiar a suposta bravura e resistência ante a tirania, bem ao seu estilo. Apenas isto. Ao invés de prender-se a este ponto, Reinaldo prefere, uma vez mais, uma abordagem escandalosa: seria uma declaração tão absurda, que deveria ser a primeira no rol de tranqueiras ditas pelo presidente.
O que importa na fala de Lula, mesmo, é a sua visão simplista e rasa da realidade e dos fatos. Nenhum choque ou tortura valeu à pena pelo simples motivo de que a maioria esmagadora lutava por um sonho equivocado: o socialismo. Não existia compromisso visando à liberdade e a democracia. Os jovens guerrilheiros lutavam contra a ditadura militar desejando a ditadura que lhes convinha. Logo, dizer que valeu a pena lutar por isto é apenas mais um auto-engodo lulista – na verdade, da esquerda religiosa.
Se tivessem se levantado contra o mal tendo por finalidade a democracia e a liberdade, os choques não valeriam a pena? Não. Mas a luta e a resistência a eles, sim.

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